O anúncio a Zacarias
Entre o último profeta do Antigo Testamento, Malaquias, e o primeiro acontecimento narrado no Evangelho de São Lucas, transcorrem cerca de quatrocentos anos. Quatro séculos de silêncio profético. O povo de Israel passou pelo domínio persa, pela conquista de Alexandre, pela helenização imposta pelos selêucidas, pela revolta dos Macabeus, pela queda dos asmoneus e pela ocupação romana sob Pompeu (63 a.C.). Sinagogas se multiplicaram, escolas rabínicas floresceram, partidos religiosos se formaram (fariseus, saduceus, essênios, zelotes), mas nenhum profeta autêntico levantou a voz no nome do Senhor. O céu parecia fechado.
É exatamente nesse silêncio prolongado, e justamente quando ninguém mais o esperava, que Deus rompe a quietude profética com um anúncio. E o faz, caracteristicamente, não num palácio nem na corte do rei Herodes (o Grande, então no fim de seu reinado), e sim no Templo de Jerusalém, no Santo, junto ao altar do incenso, na hora da oferta cotidiana. O destinatário do anúncio é um sacerdote idoso, da turma de Abias, casado com uma mulher também idosa e estéril. O nome dele é Zacarias. O nome dela é Isabel.
São Lucas, evangelista que mais cuidadosamente coletou as memórias da infância de Jesus e de João, abre seu Evangelho com a cena (Lc 1,5-25). É preciso lê-la com lentidão, porque cada detalhe importa.
O sacerdote da turma de Abias
Zacarias pertencia à oitava das vinte e quatro turmas sacerdotais estabelecidas por Davi (1Cr 24,10), a turma de Abias. Cada turma servia no Templo durante duas semanas por ano, mais as três grandes festas de peregrinação. O serviço diário envolvia múltiplas funções: o sacrifício matinal e vespertino, a preparação dos pães da proposição, a manutenção do candelabro de sete braços e, ocasionalmente, a função mais reverenciada, a oferta do incenso no altar de ouro, dentro do Santo. Essa última função cabia a um sacerdote por vez, escolhido por sorte, e a tradição dizia que nenhum sacerdote a executava mais de uma vez na vida, dada a quantidade de sacerdotes em serviço (estima-se que havia, naquele período, cerca de oito a dezoito mil sacerdotes em Israel).
Quando o evangelista diz que naquele dia coube por sorte a Zacarias entrar no Santuário do Senhor para oferecer o incenso (Lc 1,9), está informando, em uma frase, que Zacarias estava vivendo o momento mais sagrado de toda a sua vida sacerdotal. Um momento que provavelmente não se repetiria. Ele tinha consciência disso. O povo, reunido no átrio, orava do lado de fora enquanto a fumaça subia. É nesse instante, entre o altar do incenso e o véu que separava o Santo do Santo dos Santos, que tudo acontece.
Apareceu-lhe um anjo do Senhor
O texto registra: Apareceu-lhe um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do incenso. Zacarias perturbou-se à sua vista, e o temor apoderou-se dele (Lc 1,11-12). A reação de Zacarias é a reação clássica do homem bíblico diante do sagrado. Não é a serenidade de quem encontra algo bonito; é o pavor reverencial de quem se descobre diante de uma realidade que o transcende infinitamente. O anjo precisa começar com a fórmula que será repetida poucas semanas depois a Nossa Senhora em Nazaré: Não temas, Zacarias.
E então vem o anúncio: Não temas, Zacarias, porque a tua oração foi ouvida. Isabel, tua mulher, dar-te-á à luz um filho, e tu lhe darás o nome de João. Ele será para ti motivo de alegria e regozijo, e muitos se alegrarão com seu nascimento, porque ele será grande diante do Senhor (Lc 1,13-15a).
Cada palavra dessa frase carrega significado. Tua oração foi ouvida: Zacarias e Isabel oravam, possivelmente havia décadas, por um filho. A esterilidade era considerada, no contexto bíblico, uma desgraça pública e um sinal de afastamento de Deus, mesmo quando ninguém o tivesse de fato merecido (basta lembrar Sara, Rebeca, Raquel e Ana, todas estéreis antes de receberem o filho prometido). O anjo informa que aquela oração antiga, que talvez Zacarias já tivesse abandonado, foi atendida no tempo de Deus, não no tempo dele.
Tu lhe darás o nome de João: o nome não é facultativo. É revelado. João, em hebraico Yôḥānān, significa o Senhor é gracioso, ou Deus se compadeceu. O nome anuncia, por si mesmo, a função do filho que virá. Ele será o sinal vivo de que Deus se inclinou sobre o seu povo. E como veremos mais adiante, esse nome inusitado (nenhum parente da família o usava) será o motivo do conflito narrado em Lc 1,59-63, quando os vizinhos e parentes quiserem chamá-lo de Zacarias e Isabel, contra todos eles, insistirá: Não. Seu nome é João.
Ele será grande diante do Senhor: a expressão grande diante do Senhor não é elogio genérico. É uma fórmula reservada, na Escritura, a personagens de envergadura única. O próprio anjo continua: Ele não beberá vinho nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo já desde o seio de sua mãe (Lc 1,15b). A proibição de vinho e bebida forte remete diretamente ao voto do nazireu (Nm 6,1-21), o mais alto grau de consagração levítica no Antigo Testamento. Sansão (Jz 13,4-5) e Samuel (1Sm 1,11) foram nazireus desde o ventre. João será o terceiro, e o maior.
Será cheio do Espírito Santo já no seio materno
Há aqui um detalhe teológico de imensa importância, e que o leitor deve fixar bem, porque é raro na Escritura. O anjo diz que João será cheio do Espírito Santo já desde o seio de sua mãe. Em toda a Bíblia, apenas João Batista recebe essa afirmação explícita de santificação intrauterina. Nem mesmo Jeremias (Jr 1,5) ou Isaías (Is 49,1), que foram chamados desde o ventre, são descritos como cheios do Espírito Santo no ventre. Isso é exclusividade de João.
A consequência teológica é que João nasce já santificado. Ele é o único santo, além da Santíssima Virgem (que foi preservada do pecado original por privilégio singular) e do próprio Cristo, que entra neste mundo sem a mancha do pecado original sobre a alma, segundo a interpretação tradicional baseada nesta passagem e no episódio da Visitação, que estudaremos no Capítulo 2. Não se trata de Imaculada Conceição (privilégio único de Maria); trata-se de santificação no ventre, removendo o pecado original no instante em que João, ainda feto de seis meses, salta no ventre de Isabel ao ouvir a saudação de Maria, recém-concebida do Verbo (Lc 1,41).
“Aquele que ainda não nascera, salta no ventre. Maravilha! Aquele que ainda não veio à luz, conhece o Senhor que ainda não foi dado à luz. Reconhece a presença, e reconhece-o como Senhor. Aquele que será o Precursor anuncia, antes mesmo de ter voz, aquele a quem precederá.”
São João Crisóstomo, Homilia sobre a Natividade de São João Batista
A missão: preparar um povo bem disposto ao Senhor
O anjo prossegue, e agora chegamos ao núcleo da missão: Converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus. Irá adiante dele com o espírito e o poder de Elias, para reconciliar os corações dos pais com seus filhos, e os incrédulos à prudência dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo bem disposto (Lc 1,16-17).
Três elementos dessa passagem precisam ser destacados. Primeiro: João converterá muitos. Sua missão é conversão, não consolação. Ele não vem para confortar pecadores em seus pecados; vem para chamá-los à mudança de vida. Segundo: ele irá adiante com o espírito e o poder de Elias. Essa é a primeira menção, ainda velada, de que João Batista é o cumprimento da profecia final de Malaquias, último livro do Antigo Testamento: Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o dia do Senhor, grande e terrível (Ml 4,5-6). Toda a expectativa messiânica judaica do primeiro século girava em torno dessa promessa: o Elias redivivus, o Elias que retorna, precisaria aparecer antes do Messias. João é esse Elias, não na pessoa (não houve reencarnação), mas no espírito e no poder, como o anjo precisa nesse exato verbo. Voltaremos a esse tema com profundidade no Capítulo 17.
Terceiro: a missão de João é preparar para o Senhor um povo bem disposto. A expressão é técnica. No grego original, kateskeuasmenon, significa preparado, equipado, posto em estado de prontidão. O Messias não pode vir a um povo dormente. O povo precisa estar pronto, com os corações abertos, com as consciências lavadas, com as expectativas corretas. Essa é a função do Precursor: tornar o solo fértil para a semente que virá.
A dúvida de Zacarias e o silêncio imposto
Zacarias ouve tudo isso e responde como, francamente, qualquer um de nós responderia: Como saberei isso? Pois eu sou velho, e minha mulher já é avançada em anos (Lc 1,18). A pergunta é razoável do ponto de vista humano. Mas o anjo, que se identifica agora como Gabriel, o mesmo que tinha aparecido a Daniel séculos antes (Dn 8,16; 9,21), entende a pergunta de outra forma. Para o anjo, Zacarias está pedindo um sinal, e quem pede um sinal a um anjo do Senhor que está em pé diante do altar do incenso ainda não compreendeu o que se passa.
A resposta de Gabriel é de uma severidade impressionante: Eu sou Gabriel, e assisto diante de Deus, e fui enviado para te falar e te trazer essa boa-nova. E eis que ficarás mudo, e não poderás falar até o dia em que essas coisas se realizarem, porque não creste em minhas palavras, que se cumprirão em seu tempo (Lc 1,19-20).
Zacarias sai do Santo emudecido. O povo, que esperava do lado de fora, percebe pela demora e pelos gestos que algo extraordinário ocorrera. E aqui vale uma observação importante para o leitor moderno: o silêncio imposto a Zacarias não é uma punição arbitrária. É um sinal pedagógico. Por nove meses, Zacarias viverá em silêncio. Ele tem nove meses para meditar sobre tudo o que ouviu, para purificar sua fé, para aprender que a graça de Deus não está sujeita ao cálculo humano. Quando enfim sua voz retornar (Lc 1,64), será para proclamar o Benedictus, um dos quatro grandes cânticos do Evangelho da Infância, que estudaremos no Capítulo 3.
Há aqui, ainda, um paralelo que a tradição não cansou de observar. Nossa Senhora, em Nazaré, recebeu de Gabriel um anúncio semelhante (a concepção virginal de Jesus) e também fez uma pergunta: Como será isso, se não conheço varão? (Lc 1,34). Mas a pergunta de Maria não foi tomada como descrença pelo anjo, e ela não foi punida com nenhum silêncio. Por quê? A diferença, segundo os Padres, está no que cada um perguntou. Zacarias perguntou como saberei. Maria perguntou como será. Zacarias pediu prova; Maria pediu explicação. Zacarias duvidou da capacidade de Deus; Maria, crendo já, perguntou apenas pelo modo. A fé de Maria é, portanto, paradigma; a hesitação de Zacarias é pedagogia para todos nós.
Isabel concebe e se esconde
O texto encerra a cena com a notícia da concepção: Depois desses dias, Isabel, sua mulher, concebeu, e se ocultou durante cinco meses, dizendo: Eis o que o Senhor fez por mim, naqueles dias em que se dignou tirar o meu opróbrio de entre os homens (Lc 1,24-25).
Isabel se esconde por cinco meses. Por quê? Os comentadores oferecem várias razões. A mais provável combina humildade com prudência: ela queria proteger a graça recebida do escrutínio público enquanto a gravidez ainda não era visível, e queria viver os primeiros meses em recolhimento orante. Cinco meses é também, não por acaso, o tempo que separa a concepção de João da chegada de Maria a Ain Karim para a Visitação (Lc 1,36, onde o anjo informa Maria que Isabel está no sexto mês). É como se Isabel tivesse vivido esses cinco meses preparando-se em silêncio para o encontro que mudaria a história.
O opróbrio que Isabel diz ter sido removido é o opróbrio da esterilidade. Uma mulher estéril, no contexto bíblico, sentia-se publicamente excluída da promessa de fecundidade que Deus fizera ao povo. Cada mulher estéril era, em certo sentido, uma exceção dolorosa à bênção coletiva. Ao conceber, Isabel não só recebe um filho: ela é reintegrada socialmente, e mais, ela é elevada ao patamar das grandes mães bíblicas (Sara, Rebeca, Raquel, Ana) que conceberam pela ação direta de Deus.
Em resumo
O anúncio a Zacarias é o ponto de partida do Evangelho. É a primeira cena narrativa do Novo Testamento. E não por acaso. Antes que Maria seja saudada em Nazaré, antes que José tenha o seu sonho, antes que os pastores ouçam os anjos sobre Belém, é no Templo de Jerusalém, no coração da liturgia antiga, que Deus rompe o silêncio de quatro séculos. E quem rompe? Não diretamente o Filho. O Filho ainda não veio. Quem rompe é o anúncio do Precursor. Isso é teologicamente perfeito: João precede a Cristo até no anúncio.
O leitor que quiser compreender quem foi João Batista deve começar exatamente aqui. Antes do deserto, antes do Jordão, antes do cárcere e do martírio, há um sacerdote idoso no Templo, há uma esposa estéril em casa, há um silêncio imposto, há uma concepção milagrosa e há um nome que o céu revela: João, porque o Senhor se compadeceu.
No capítulo seguinte, acompanharemos o que aconteceu seis meses depois, quando uma jovem virgem de Nazaré, que acabara de conceber pela ação do Espírito Santo, atravessou as montanhas da Judeia para visitar uma parente. E quando ela chegou, e abriu a boca para saudar, o menino que estava no ventre de Isabel saltou. E nesse salto, segundo a tradição, João Batista foi santificado.



