A Itália em ruínas
Quando São Bento nasceu, em torno do ano 480, Roma já era uma sombra. A cidade que dois séculos antes abrigara mais de um milhão de habitantes, a maior aglomeração urbana que o Ocidente conheceria por mais mil e quatrocentos anos, agora mal chegava a trinta mil almas vivendo entre ruínas grandiosas. Os aquedutos, em parte, ainda corriam. O Coliseu ainda estava de pé. O Senado ainda se reunia. Mas era uma cidade que desempenhava o papel de si mesma diante de uma plateia cada vez menor.
A queda fora longa. Em 410, oitenta anos antes do nascimento do santo, o rei visigodo Alarico saqueou Roma, a primeira vez em quase oitocentos anos que a cidade caía sob mãos estrangeiras. Em 455, foi a vez de Genserico, à frente dos vândalos, repetir o feito. Em 476, apenas quatro anos antes do nascimento de São Bento, o último imperador romano do Ocidente, um menino chamado Rômulo Augústulo, foi deposto pelo chefe germânico Odoacro. Não houve resistência significativa. O Império do Ocidente acabou sem batalha decisiva, sem proclamação solene, sem que ninguém ao certo soubesse que estava acabando. Os imperadores do Oriente, em Constantinopla, continuaram reinando por mais mil anos. No Ocidente, restaram reinos bárbaros, ruínas e a Igreja.
Quando São Bento veio ao mundo, a península itálica estava sob o reino ostrogodo de Teodorico, um rei capaz, que governava de Ravena com um pulso firme e um respeito calculado pelas formas romanas. Mantinha o Senado em funcionamento, preservava a administração civil, tolerava a fé católica embora ele próprio fosse ariano. As estradas do antigo império ainda existiam, algumas, aliás, existem até hoje, mas estavam menos seguras do que haviam sido. Os bandos armados podiam aparecer em qualquer trecho. As cidades menores encolhiam, abandonadas pela população que migrava para os grandes centros ou para o campo. Igrejas eram construídas dentro de antigos templos pagãos, reaproveitando colunas e capitéis. O passado servia de canteiro para o presente.
É nesse mundo, e não num cenário abstrato de "Idade Média" genérica, que o jovem São Bento foi educado. Núrsia, sua cidade natal, ficava na região hoje chamada Úmbria, no centro-leste da península, encrustada nas montanhas Sibilinos. Plínio, o Velho, escrevera séculos antes que aquela região produzia "homens de constituição dura", endurecidos pelo ar das montanhas e pelos invernos rigorosos. Era também terra de caçadores de javali e de uma economia rural simples, sem o luxo das cidades costeiras. A família de São Bento pertencia à pequena nobreza local, não à grande aristocracia senatorial, mas a um estrato suficientemente provido para enviar os filhos a Roma para os estudos.
São Bento não foi sozinho. Tinha uma irmã gêmea, Escolástica, que mais tarde se consagraria a Deus e fundaria, perto de Monte Cassino, uma comunidade monástica feminina. As fontes não dizem se os dois foram a Roma juntos, e é provável que não, dado o costume da época. O que se sabe com alguma segurança é que São Bento, ainda muito jovem, quatorze, quinze, dezesseis anos, foi enviado à capital para completar sua formação em letras humanas: gramática, retórica, talvez os rudimentos do direito. Era o caminho normal de um filho de boa família, num mundo onde o conhecimento da palavra escrita ainda separava a aristocracia do resto.
A Roma que recebeu o jovem de Núrsia não era a Roma dos manuais. Era uma cidade dupla. De um lado, restos imponentes de uma grandeza que ninguém ali sabia mais como se replicava: termas em parte abandonadas, fóruns invadidos pela vegetação, basílicas paleocristãs erguidas com mármore arrancado de templos pagãos. De outro, uma vida cotidiana frenética, populosa nas zonas habitáveis, marcada por uma cristandade ainda jovem e em parte superficial, por uma classe dirigente que mantinha as formas mas perdera a substância, e por escolas em que a retórica clássica continuava sendo ensinada com pompa, ainda que para um número decrescente de alunos.
São Gregório Magno, escrevendo seus Diálogos por volta de 593, pouco mais de quatro décadas após a morte de São Bento, registrou o gesto decisivo da juventude do santo numa frase de força contida. São Bento, escreve Gregório, "retirou o pé do limiar do mundo". Foi assim, com essa expressão precisa, que o jovem aristocrata abandonou Roma. Não fugiu desiludido após uma queda moral; recuou antes de cair. Percebeu, com a clareza que pertence aos jovens lúcidos, que continuar naquele ambiente seria perder algo que ele ainda não sabia nomear, mas já sabia preservar.
A frase de Gregório merece ser lida com atenção. Não diz que São Bento condenou Roma, nem que renunciou aos estudos por desprezo pelo conhecimento. Diz que ele retirou o pé. O gesto é de quem já estava no umbral, prestes a entrar, e voltou atrás. Há nessa imagem algo do que mais tarde se tornaria uma marca da espiritualidade beneditina: a percepção do momento exato em que se deve parar. O monge que sabe quando calar. O abade que sabe quando não punir. O monge que reza enquanto trabalha porque sabe quando começar e quando terminar cada coisa. A medida como virtude.
Acompanhando-o, partiu de Roma a ama que cuidara dele desde criança, figura comum nas famílias aristocráticas da época, espécie de governanta que acompanhava os filhos de boa família por longos anos, às vezes pela vida toda. Os dois se dirigiram a Enfide, povoado a cerca de sessenta quilômetros a leste de Roma, hoje a localidade de Affile. Ali viveram uns tempos em ambiente recolhido, junto a uma comunidade cristã modesta. Foi em Enfide que aconteceu o primeiro episódio milagroso da vida de São Bento, segundo Gregório. A ama havia tomado emprestada uma peneira de barro de uma vizinha; sem querer, a peneira se quebrou em duas. A mulher chorava amargamente, temendo a repreensão. São Bento, comovido pela aflição doméstica, recolheu os pedaços, retirou-se para rezar e, ao voltar, encontrou a peneira inteira. A vizinhança quis fazer disso um espetáculo público; pendurou-se a peneira reconstituída na entrada da igreja como prova do prodígio. E foi exatamente esse rumor, a fama incipiente, o começo de um culto local em torno de sua pessoa, que levou São Bento à decisão seguinte.
Ele partiu novamente. Sozinho, agora. Embrenhou-se pelas montanhas a leste de Roma, em direção a um vale apertado entre montes altos, atravessado pelo rio Aniene e marcado, ali, por restos de uma villa imperial e de três lagos artificiais que o imperador Nero mandara construir cinco séculos antes. O lugar se chamava Sublaqueum, "sob os lagos", em latim, que o tempo simplificaria para Subiaco. São Bento tinha pouco mais de vinte anos quando chegou ali. Encontrou uma gruta no flanco da montanha, num penhasco quase inacessível. E foi nessa gruta que entrou.
Antes de seguirmos para o que aconteceu lá dentro, e o capítulo seguinte deste livro irá demorar-se nesses três anos com o cuidado que eles merecem, vale parar um instante para situar o gesto de São Bento dentro do que já existia, no mundo cristão de seu tempo, em matéria de vida monástica. Porque São Bento não inventou nada. São Bento recebeu uma tradição, ouviu falar dela talvez em Roma mesmo, e decidiu entrar nela.
A vida monástica cristã, no final do século V, já tinha quase duzentos anos. Havia começado no Egito, em torno do ano 270, quando um jovem chamado Antão, ouvindo na igreja a passagem evangélica em que Jesus diz ao jovem rico que venda o que tem e o siga, decidiu fazer literalmente o que o texto pedia. Vendeu a herança, distribuiu aos pobres e retirou-se para o deserto egípcio, onde viveria mais de oitenta anos em ascese severa. A biografia que dele escreveu Atanásio de Alexandria, no século IV, tornou-se um dos livros mais lidos do cristianismo antigo, e o modelo do eremita do deserto espalhou-se rapidamente do Egito para a Síria, a Palestina e além.
Outras formas surgiram. Pacômio, também no Egito, no início do século IV, organizou os primeiros mosteiros propriamente ditos, comunidades de monges vivendo sob uma regra comum, em vez de eremitas isolados. Basílio, na Capadócia, deu ao monasticismo grego sua forma duradoura, com ênfase no equilíbrio entre oração e serviço caritativo. No Ocidente, a tradição chegou mais tarde, mas chegou. Martinho de Tours, na Gália do século IV, fundou comunidades monásticas que mesclavam ascese oriental e improvisação ocidental. João Cassiano, monge formado no Egito, instalou-se em Marselha em torno de 415 e escreveu duas obras, as Instituições Cenobíticas e as Conferências, que se tornariam leitura obrigatória de todo monge ocidental nos séculos seguintes. O próprio São Bento, na Regra que escreveria décadas mais tarde, recomendaria expressamente a leitura de Cassiano aos seus monges.
No tempo em que São Bento se retirou para Subiaco, portanto, a vida monástica ocidental já existia, mas existia de modo desordenado. Havia eremitas autênticos e eremitas charlatães. Havia mosteiros bem governados e mosteiros caóticos. Havia regras escritas, a do Mestre, a de Pacômio em tradução latina, a de Cesário de Arles, mas nenhuma se impunha como referência única, e cada comunidade improvisava conforme seu fundador. O cenário lembrava, em pequena escala, o cenário civil: ruínas grandiosas e improvisos modestos, fragmentos de ordem antiga e tentativas de ordem nova, sem que ninguém ainda soubesse que forma o futuro tomaria.
A obra de São Bento, que ele próprio jamais imaginou que se tornaria obra histórica, seria justamente dar forma ao que estava em busca de forma. Não inventar o monasticismo, mas organizá-lo. Não impor uma rigidez nova, mas oferecer uma medida. Não substituir Cassiano nem o Mestre, mas destilar deles, e da própria experiência, um texto curto, equilibrado, humano, que pudesse ser vivido por homens comuns em comunidades pequenas, sem heroísmos impossíveis nem frouxidões fáceis.
Esse texto, porém, ainda estava distante. Faltavam ainda quase quarenta anos até que São Bento se sentasse em Monte Cassino para escrever a Regra. Antes disso, viriam os três anos na gruta, e tudo o que se passa no silêncio de uma gruta, quando um jovem nobre romano decide que prefere a quietude da pedra ao limiar do mundo.
Vale, ao encerrar este capítulo, recolher o que dele se desprende. O São Bento que a tradição entregou aos séculos posteriores, o santo da medalha, o protetor contra o mal, o pai do monasticismo ocidental, não caiu pronto no mundo. Veio de uma região específica, de uma família específica, de um tempo específico. Estudou em Roma quando Roma já era ruína. Viu de perto o desmoronamento de uma civilização que se julgava eterna. Cresceu num mundo onde os pais ensinavam aos filhos uma cultura cujos pressupostos já não vigoravam, e onde a Igreja, jovem ainda, era uma das poucas instituições que parecia ter futuro.
Compreender isso muda a forma como se lê tudo o que vem depois. A insistência da Regra na estabilidade, esse voto particular de permanecer até a morte na mesma comunidade, só se entende plenamente quando se lembra que São Bento viveu num mundo onde tudo se mexia: povos inteiros migravam, cidades se esvaziavam, autoridades trocavam de mãos a cada década. Estabilidade, no século VI, não era platitude espiritual. Era resistência cultural.
A insistência na disciplina cotidiana, no ritmo regular de oração e trabalho, na medida em todas as coisas, também ganha outro peso quando se sabe que São Bento cresceu vendo o oposto. Cresceu num mundo onde a medida se perdera, onde os excessos da decadência se misturavam aos excessos da austeridade improvisada de eremitas sem formação. A Regra, nesse sentido, é uma resposta civil tanto quanto espiritual. Propõe uma forma de viver que se sustenta no tempo, porque ninguém, nem o monge mais fervoroso, aguenta indefinidamente o que não cabe na medida humana.
A última imagem deste capítulo é a do jovem entrando na gruta de Subiaco. Tem pouco mais de vinte anos. Vem de Núrsia, passou por Roma, viveu em Enfide, atravessou montanhas. Não pretende fundar nada. Não pretende escrever nada. Pretende apenas estar com Deus, em silêncio, na pedra. O que Deus fará com esse silêncio é matéria do próximo capítulo.



